O PRIMEIRO LONGA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO DE MINAS GERAIS

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Em 2013 foi concluída a Trilogia do caos (1998-2013), a primeira animação de longa-metragem, e em computação gráfica, de Minas Gerais, dividida em três episódios sequenciais: A flor do caos (1998-2000), um dos quatro premiados da área de cinema com o Prêmio Projeto Experimental, da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, da Secretaria Municipal de Cultura, da Prefeitura de Belo Horizonte; Selenita acusa! (2000-2001), um dos oito contemplados com o I Prêmio Estímulo para Produção, da Associação Curta Minas / CEMIG; e Dr. Cretinus retorna… (2002-2013), que encerra a Trilogia do caos em tom apocalíptico.

Com roteiro, direção e produção de Luiz Nazario, essas produções foram concebidas dentro do projeto de pesquisa acadêmico Animação Expressionista, sob a perspectiva da teoria crítica do imaginário, e realizadas por estudantes e técnicos de animação da Escola de Belas Artes (EBA) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).  O projeto emulou, além da Iniciação Científica e do Mestrado em Artes da Escola, as atividades dos ateliês do Departamento de Fotografia, Teatro e Cinema (DFTC), direcionando-as para uma produção artística de maior fôlego.

Além da original adaptação do expressionismo alemão – estilo de grande plasticidade e conteúdo humanista – para uma animação brasileira, acreditamos que o maior benefício do projeto foi a consolidação do Núcleo de Animação mineiro estruturado na EBA, onde, apenas durante minha gestão na chefia do DFTC, entre 1998 e 2001, foram finalizados 50 curtas-metragens, animações em sua maioria.

Para a realização dos três episódios da Trilogia do caos, a equipe contou com equipamentos adquiridos pelo projeto (câmara Hi-8, Scanner, gravador digital de áudio DAT, ilha de edição Matrox RT 2000, computadores Pentium III com softwares, placas e memórias adequadas), com a ilha  de edição Betacam do Estúdio de Vídeo da EBA e com seus computadores pessoais, pois parte dos trabalhos foi desenvolvida em casa.

Cada episódio produzido através de modelos gráficos, mapas de textura e animação kay-frame foi renderizado em preview para a edição digital e finalizado em diferentes suportes: A flor ou caos, em Betacam e DVD; Selenita acusa!, em Betacam, DVD e película 35mm; Dr. Cretinus retorna…, em DVD – hoje a mídia mais acessível.

Do ponto de vista do conteúdo, a Trilogia do caos gira em torno das monstruosidades produzidas em pesquisas científicas fartamente financiadas por governos e empresas interessadas no controle tecnológico e industrial da vida. A animação alerta para o potencial destrutivo da engenharia genética, que pode constituir uma ameaça não apenas à civilização humana como à própria vida em seu processo de evolução natural no planeta.

Trata-se, portanto, de uma animação engajada, dirigida a um público adulto, sem excluir deliberadamente as crianças. Mas entendemos o cinema de animação não como entretenimento infantil, e sim como forma artística da reflexão crítica, à maneira das animações antitotalitárias paradoxalmente realizadas sob o comunismo do Leste europeu.

Ancorando-se na tradição humanista do expressionismo; inspirando-se nas formas orgânicas da natureza e da arte plasmadas nesse estilo; e recusando o conformismo típico da “pós-modernidade”, a Animação Expressionista combate, com seus meios próprios – o humor, o exagero, a deformação – o terrorismo da ciência, que se impõe sem resistência num mundo esvaziado de valores.

Alegorias, simbolismos, metáforas e citações são constantes na Trilogia do caos, já que ela nasceu dentro de um projeto de pesquisa. A sombria Chaos City, a Cidade do Caos de A flor do caos, que é destruída no final de Selenita acusa! e assim aparece no início de Dr. Cretinus retorna… foi inspirada nas ruelas tortas de O gabinete do Dr. Caligari e nos interiores cavernosos de O gabinete das figuras de cera.

Já a Klonenstadt, a Cidade dos Clones, que só existe dentro das redomas, sendo vista apenas na sequência final de Dr. Cretinus retorna…, tem duas inspirações diversas. A primeira são as cidades utópicas neoexpressionistas do arquiteto austríaco, de ascendência judaica, Hundertwasser, de vibrante colorido. A segunda é o estranho Projeto Biosfera 2, construído no Arizona (EUA): numas redoma de vidro com 12 mil m2, oito cientistas ficaram confinados de 1991 a 1993 com o objetivo de construir uma miniatura do planeta.

O projeto fracassou, mas foi, curiosamente, a inspiração para o bem sucedido programa de TV Big Brother, do empresário holandês De Mol, que declarou sobre sua gênese: “Juntamos a ideia de mudança de uma rotina com um projeto científico que ocorreu há alguns anos, chamado Biosfera 2. Um grupo de cientistas viveu junto numa casa de vidro por dois anos e era completamente autossuficiente.

Nas redomas da Klonenstadt de Dr. Cretinus retorna…, as colmeias de vidro do Projeto Biosfera 2 são explicitamente citadas em referência sobreposta ao programa Big Brother, sintomático de nosso tempo, onde a vida se concentra e se congela nos shopping centers, as câmaras ocultas espalham-se por toda parte e a privacidade é perdida “gloriosamente”.

O Expressionismo vem sendo redescoberto em todo o mundo. Entre os novos estudos dedicados ao tema destacamos os catálogos: German Expressionism: Art and Society 1909-1923 (1997), de Stephanie Barron e Wolf-Dieter Dube (orgs); e Expressionismo alemão (1998), de Sabine Fehlemann (org.); Nelson Rodrigues expressionista (1998), de Eudinyr Fraga; Debate sobre o Expressionismo (1998), de Carlos Eduardo Jordão Machado; As sombras móveis (1999), de Luiz Nazario; Lasar Segall e o Expressionismo (2000), de Claudia Valladão de Mattos; as coletâneas: Poesia expressionista alemã (2000), de Claudia Cavalcanti (org.), e O Expressionismo (2003), de Jacó Guinsburg (org.); e o álbum: Expressionismo (2004), de Norbert Wolf.

Ficha técnica

Trilogia do caos (Brasil, Belo Horizonte, 2013, 60’). Roteiro, Direção, Produção: Luiz Nazario. Coordenação de Animação: Alessandro Costa, Juliana Weinberg, Marco Anacleto. Storyboard: André Reis, Edward De Carvalho, Cadu Rocha, Fernando Rabelo, Marco Anacleto, Sílvia Pinheiro, Soraia Nunes Nogueira, Rafael de Sá Marques. Grafismos: Soraia Nunes Nogueira. Desenho de produção: Cláudia Jussan. Direção de arte: Cláudia Jussan, Fernando Rabelo, Marco Anacleto. Desenho de figurino: Adriana Bicalho. Animação 2D: Adriana Bicalho, Adriane Pureza, André Reis, Cadu Rocha, Daniela Maria, Fernando Rabelo, Soraia Nunes Nogueira. Modelagem digital: Juliana Weinberg, Marco Anacleto, Nina Faria. Animação 3D: Marco Anacleto, Nina Faria. Fotografia: Marco Anacleto. Efeitos visuais: Nina Faria. Edição: Alessandro Costa, José Ricardo Miranda Junior, Luiz Nazario, Marcelo La Carretta, Soraia Nunes Nogueira. Trilha sonora: Lelo Nazario, Paulo Machado. Edição de som: Nélio Costa. Assistência de produção: Gabriela Garzon, Janaína Soares, Monaí de Paula. Apoio técnico: Luiz Carneiro, Nelson Barraza. Créditos: Alessandro Costa, Sílvia Pinheiro, Soraia Nunes Nogueira. Versão: Elaine Mansano. Making of: Cláudia Jussan, Daniel Pinheiro Lima, Daniela Maria, Paulo Machado, Marcos Barreto, Sérgio Vilaça. Stills: Cléber Falieri, Luis Felipe Cabral, Paulo Baptista. Pesquisa: Carlos Fonseca, Chico Marinho, Cláudio de Oliveira, Eduardo Bernardes, Edward De Carvalho. Realização: Ophicina Digital. Recursos: Prêmio Projeto Experimental da Lei de Incentivo à Cultura da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte; I Prêmio Estímulo à Produção da Associação Curta Minas/CEMIG; Auxílio FAPEMIG/Produção Multimídia de Material Didático Integrado na Área de Imagem e Som; Auxílio FAPEMIG/Filmoteca Mineira. Apoio: FTC/EBA/UFMG; Bolsas CAPES, CNPq, FAPEMIG. © Luiz Nazario / Animação Expressionista. Legendas: inglês e português. Categoria: Animação. Gênero: Ficção científica. Cópias disponíveis: VHS, Betacam (NTSC), Mini-DV, DVD, 35mm. Distribuição internacional: Grupo Novo de Cinema e TV.

Sinopse

Fascinados pelos mistérios da natureza, Dr. Cretinus e sua fiel assistente Selenita experimentam de tudo para criar novos seres transgênicos. Logram gerar uma quimera aparentemente inofensiva, mas que, ao escapar do laboratório, reproduz-se livremente enquanto a humanidade mergulha num caos incontrolável. Dr. Cretinus salva a humanidade e troca o laboratório pela política, esquecendo-se da fiel assistente Selenita que, ferida em seu íntimo, vinga-se com método, levando Dr. Cretinus à prisão. Depois, aventurando-se em novas experiências, Selenita cria uma planta transgênica que conquista o mundo. Enriquecida com a venda da patente, ela não chega a saborear sua vingança, pois o brilhante produto industrializado em massa pelo conglomerado de Mr. Maroto revela-se uma ameaça à vida na Terra. Em meio à paralisia geral, Dr. Cretinus escapa da prisão e retorna ao laboratório, aparentemente abandonado. O mundo não é mais o mesmo: até Selenita desapareceu. E Dr. Cretinus não percebe que a figura no fundo do espelho não é o seu reflexo, mas um Homunculus criado à sua imagem e semelhança. Dr. Cretinus cai sob o efeito de uma droga e se vê preso numa redoma, assistindo impotente ao nascimento de um novo mundo povoado por minúsculas criaturas.